[meras idéias]

terça-feira, 2 de março de 2010
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 filosofia e teologia demonstram a inexistência de “meras idéias”. quando filósofos são citados, o padrão que é ativado é o de homens velhos, barbudos e inofensivos, tomando chá e conversando sobre idéias que não são facilmente entendidas. mas essa imagem é errada!
“os acontecimentos do mundo e da vida das pessoas navegam sobre as águas de um mar ideológico. as matanças no camboja procedem de discussões filosóficas em paris”. paul johnson. a history of the modern world from 1917 to the 1980. londres: weidenfeld and nicolson. pp 654-55.  ideologias e slogans possuem uma influência assustadora sobre os que as compartilham. negros foram lixados vivos e escalpelados no estado do texas, homossexuais foram internados em hospitais psiquiátricos e exorcizados (quando não mortos), cristãos  tiveram mortes das mais variadas, judeus foram brutalmente massacrados em nome de uma ideologia perdida alemã, iraquianos inocentes morreram para saciar a sede de sangue ianque, pessoas que não possuem o padrão de beleza convencional são ignoradas todos os dias. pessoas navegam todos os dias no fluxo de “meras idéias” sem analisá-las, a ponto de matar, discriminar e ignorar.   
quando nos voltamos para o cristianismo, as coisas não são melhores. acompanhe a história do cristianismo e verá que muitas vezes os cristãos foram perseguidos por líderes que afirmavam possuir o direito divino para dizimar aqueles que possuíam uma compreensão diferente acerca das Escrituras (se é que realmente elas eram o foco da questão em tais épocas). o problema quando se adéqua fatos a teorias é que eles tendem a ser moldados a elas. quer um exemplo disso? frequente regularmente a alguma comunidade cristã e logo você ouvirá idéias em sermões que seguramente não tem por base as Escrituras, mas a mente de quem as proferiu.
eu teria poucas dificuldades com as escrituras se jó não tivesse enfrentado tudo que passou sem uma explicação, se paulo não sofresse tanto e estivesse em paz em meio a todo o terrível sofrimento que enfrentou, se Cristo não tivesse dito que devemos ser iguais a Ele como Ele o é com o Pai ou se pedro não tivesse falado das obras do espírito em nossa vida. mas o problema não está nas escrituras, mas em mim. é preferível aplicar uma compreensão minha à Bíblia, a ter que mudar minha vida para me espelhar no que ela diz.
os judeus foram peritos em fazer isso nessa prática, a ponto de Paulo escrever que “a ira do Senhor se manifesta sobre os homens que mantêm a verdade prisioneira da injustiça”. Rm 1.18. paulo demonstra que lidar com idéias bíblicas não e tão simples quanto parece. não se trata do que penso a respeito (do que acho). por trás delas existem aprendizado e seriedade. assim como a ira do Senhor se manifestou sobre os judeus, ela pode se manifestar hoje (se não se manifesta) sobre aqueles que usam as Escrituras como endosso para suas idéias (muitas vezes absurdas).
a forma como o talmude ordenava que os mandamentos fossem guardados era opressora e não bíblica. a forma como Cristo viveu os mandamentos é radical e libertadora. mais fácil seguir um cristianismo baseado em sermões de pregadores psicológicos e morais, ou em frases repassadas pela internet? mas o sentindo do cristianismo não é que você o adéque a sua vida, mas que sua vida seja transformada por ele.
até mesmo a filosofia clássica fala do esvaziar-se antes do aprendizado. no cristianismo essa prática é mais necessária ainda. Cristo diz que precisamos deixar nossas “meras idéias” de lado para que ele nos ensine a termos “vida e que a tenhamos em plenitude”. Jo 10. 10
 


b. schwantes

[slogans]

domingo, 24 de janeiro de 2010
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o manto da falta de significado intelectual encobre todos os aspectos da nossa vida cotidiana. acontecimentos, coisas e “informações nos afogam , nos subjugam, desorientando-nos com ameaças e possibilidades acerca das quais a maioria de nós não sabe o que fazer.
comerciais, slogans, bordões políticos e pretensiosos rumores intelectuais atulham o nosso espaço mental e espiritual. as nossas mentes e os nossos corpos “pegam”essas coisas como um terno escuro pega fiapos. elas nos decoram. nós nos dispomos a ostentar mensagens nas camisas, nos bonés – até nos fundilhos de calças. algum tempo atrás tivemos uma campanha nacional contra os outdoors nas estradas. mas os outdoors não são nada se comparados àquilo que hoje exibimos por todo o corpo. estamos imersos num “ruído” onipresente que nos acompanha do nascimento até à morte – ruído silencioso e nem tão silencioso.
pois não é de se espantar que pessoas se disponham a ostentar uma marca comercial na camisa, no boné ou no sapato para dizer aos outros quem elas são? e veja o leitor que vivemos em um mundo em que criancinhas cantam coisas como: “eu queria ser uma [determinada marca de salsicha. é isso que eu realmente quero ser. pois, se eu fosse [essa determinada marca de salsicha, todos se apaixonariam por mim”.
pense no que seria ser uma salsicha ou no que significa alguém amar você como “ama” um cachorro-quente. pense num mundo em que os adultos pagariam milhões de dólares para ter crianças cantando essa música em “comerciais” em que centenas de milhões, bilhões ate’, de adultos não vêem problema nenhum nisso. pois você esta pensando no nosso mundo. se você se dispõe a ser uma salsicha para ter amor, o que mais não faria? é de admirar que a depressão e outros distúrbios mentais e emocionais sejam epidêmicos? quem é, afinal, que está hoje voando de cabeça para baixo?
nos escombros das certezas despedaçadas do passado, o nosso anseio por bondade, correção e aceitação – e ainda orientação – faz que nos apeguemos a slogans de adesivos, mensagens ostentadas nas roupas e panacéias compradas em lojinhas de presentes, coisas que nós, vivendo de cabeça para baixo, julgamos profundas, mas que de fato não fazem sentido: “defenda os seus direitos” parece ótimo. e que dizer de: “tudo o que eu precisava saber já aprendi no jardim de infância”? e: “pratique boas ações aleatórias e insensatos atos de beleza”? e por aí a fora.
 tais dizeres contêm o mínimo elemento de verdade. mas, se você tentar realmente planejar a sua vida com base neles, vai se ver em sérios apuros. eles o fazem girar em 180 graus, encaminhando-o na direção errada. é o mesmo que modelar a vida com base em bart Simpson ou seinfeld. em vez disso, experimente “defenda suas responsabilidades” ou “eu não sei o que preciso saber e, portanto, devo hoje dedicar toda a minha atenção e todas as minhas forças a descobrir isso” ou “pratique rotineiramente boas ações deliberadas e inteligentes atos de beleza”.
colocar esses lemas em prática é algo que imediatamente infunde na vida verdade, bondade, força, e beleza. mas você jamais vai encontrá-los num cartão, num botão ou num adesivo. não são considerados inteligentes. o que é verdadeiramente profundo é tido como idiota e banal, ou pior, chato, enquanto aquilo que é realmente idiota e banal é considerado profundo. é isso que eu quero dizer com a idéia de voar de cabeça para baixo.
tudo o que eu é realmente profundo na sabedoria sagaz é a terrível necessidade da alma à qual esses lemas respondem incoerentemente. nós percebemos a incoerência boiando pouco abaixo da superfície, e achamos a incoerência e a impropriedade vagamente agradáveis e fiéis à realidade: qual o valor de defender os direitos num mundo em que poucos defendem as suas responsabilidades? a menos que os outros sejam responsáveis, ou seus direitos serão de pouca valia. e será que aprender no jardim de infância a atrais pessoas e ganhar muito dinheiro escrevendo livros que asseguram aos outros o que eles já sabem tudo o que precisam saber para viver bem? e como praticar algo que é aleatório? logicamente é impossível. o que é aleatório pode atingir você, mas tudo o que eu se faz deliberadamente com certeza não á aleatório. e nenhum ato de beleza é insensato, pois o belo nunca é absurdo. nada tem mais significado que a beleza.
de fato, dizeres populares atraem as pessoas só porque elas se sentem assombradas pela idéia, oriunda dos cumes intelectuais, de que a vida é na realidade absurda. assim o único alívio aceitável é ser sagaz ou inteligente. nos lares e nos edifícios públicos do passado, viam-se pendurados na parede ou gravadas em pedras e madeira palavras de grave e desprendida exortação, invocação e benção. mas esse mundo é passado. hoje a lei é “ser sagaz ou morrer”. a única sinceridade tolerável é a inteligente insinceridade. é isso que as mensagens das roupas e dos cartões realmente alardeiam. a “mensagem” específica pouco importa.
[...] o absurdo e a sagacidade são assuntos bons para quem quer rir ou talvez cismar. mas não valem como fundamento de vida. não proporcionam refúgio nem orientação ao ser humano.

p.s. esse texto de dallas willards tem me guiado em muitas reflexões. espero que o mesmo aconteça com vocês.

[ouça 2/2]

domingo, 27 de setembro de 2009
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existe outra reflexão possível para a frase citada no primeiro texto. uma reflexão teológica, mas precisamente hermenêutica.
você já analisou quantas denominações existem atualmente? lembro que quando cheguei ao bairro onde moro hoje havia somente uma igreja (a que costuma existir na frente de toda praça principal). hoje existem inúmeras, inclusive uma igreja de esquina que se considera uma catedral. e pasme: cada denominação afirma possuir uma compreensão das Escrituras original e revelada. ou o princípio hermenêutico de possuírem as Escrituras uma única teologia não é válido, ou existe um grande problema em meio a essa situação.
tenho grande apreço pelo diálogo acerca das Escrituras, principalmente com pessoas de outras denominações e com aqueles que não possuem crença religiosa alguma. note que a problemática maior dessa questão é o fato de inúmeros religiosos não conseguirem “ouvir as Escrituras”, pois a voz de suas idéias fala mais alto. isso explica o fato de religiosos pregarem como verdade, aberrações declaradas para a teologia bíblica. somente aqueles que têm ouvidos para ouvir – e a mínima condição de fazê-lo – podem ouvir as Escrituras falarem de suas verdades.
falar em nome das Escrituras não é dizer o que você pensa ser a verdade. assim como a Bíblia não é um oráculo contendo todos os mistérios e segredos do nosso planeta e no universo, ela foi escrita com um propósito de relatar a história necessária do nosso planeta e da redenção dos eleitos e a revelação daquilo que o Senhor faz conhecer através dela.
não encare a Bíblia como a “hermenêutica bíblica medieval” procurando uma revelação particular – esquecendo o seu conjunto – para problemas e situações de vida, ignorando a tradução-interpretação bíblica.
não confunda o sentido da reforma protestante. ela não afirmou ser qualquer – sem condições necessárias de fazê-lo – um capaz de traduzir-interpretar as escrituras. ela afirmou a possibilidade de todos “ouvirem-na” para que a possam compreender.
não ignore a necessidade de mentores que irão auxiliá-lo na compreensão das Escrituras. falo de mentores verdadeiros, não charlatões. a própria Escritura fala acerca da necessidade deles.
da próxima vez que for ler a sua Bíblia, lembre-se que você a lê com o objetivo dela revelar as verdades descritas em suas páginas, não para que você endosse o que pensa ser a verdade bíblica com suas palavras.
aqueles que têm ouvidos para ouvir, ouçam.

 b. schwantes

[rosh hashaná]

quinta-feira, 17 de setembro de 2009
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o mês de tishrei é o sétimo no calendário judaico. isso pode parecer estranho, pois rosh hashaná, o novo ano, é no primeiro e segundo dia de tishrei. a razão é que a torá fez o mês de nissan o primeiro do ano, para enfatizar a importância histórica da libertação do egito, que aconteceu no décimo quinto dia daquele mês, e que assinalou o nascimento de nossa nação.
entretanto, de acordo com a tradição, o mundo foi criado em tishrei, ou mais exatamente, adam (adão) e chava (eva) foram criados no primeiro dia de tishrei, que foi o sexto dia da criação, e é a partir deste mês que o ciclo anual se inicia. por isso, rosh hashaná é celebrado nesta época.
há doze meses no ano, e há doze tribos em Israel. cada mês do ano judaico tem sua tribo representativa. o mês de tishrei é o mês da tribo de dan. isto tem um significado simbólico, pois quando dan nasceu, sua mãe lea disse: "D'us julgou-me e também atendeu à minha voz." dan e din (yom hadin, dia do julgamento) são ambos derivados da mesma raiz, simbolizando que tishrei é a época do julgamento divino e do perdão. Similarmente, cada mês do calendário judaico tem seu signo no zodíaco (em hebraico mazal). o mazal de tishrei é a balança. este é o símbolo do dia do julgamento, quando D'us pesa as boas e as más ações do ser humano.
o primeiro dia de tishrei, que é o primeiro dia de rosh hashaná, jamais pode cair num domingo, quarta ou sexta-feira. historicamente, entretanto, o primeiro rosh hashaná foi numa sexta-feira, o sexto dia da criação. neste dia, D'us criou os animais dos campos e das selvas, e todos os animais rastejantes e insetos, e finalmente - o homem. assim, quando o homem foi criado, encontrou tudo pronto para ele.
os judeus entendem a diferença entre rosh hashaná e o ano novo secular. rosh hashaná não é uma ocasião para festejar e se soltar. sim, está associado com celebrações, como declara a torá: “coma alimentos suculentos e tome bebidas doces, envie porções àqueles que não têm nada preparado… não fique triste, pois o júbilo de D’us é a sua força.” porém a mesma passagem dá a razão para o júbilo: “o dia é sagrado para nosso D’us.”
para a compreensão judaica, mais especificamente, rosh hashaná é o dia do julgamento, quando D’us “abre o livro das lembranças… e todos os habitantes do mundo passam perante Ele como ovelhas… e Ele escreve seus decretos.”



shaná tová!

[ouça 1/2]

sexta-feira, 28 de agosto de 2009
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um bom diálogo necessita do silêncio. era o que dizia o meu avô para me ensinar acerca da necessidade de ouvir. note algo: existem poucas situações tão complicadas quanto um diálogo que envolve idéias controversas. costumo ser um bom observador, e é fácil ver que na maioria dos diálogos, enquanto você fala, a outra pessoas realmente não está analisando e refletindo as idéias proferidas. na verdade, ela está estruturando sua resposta sem ao menos ter ouvido o que foi dito. é um desastre tentar dialogar com pessoas assim. costumo não desperdiçar tempo na tentativa de diálogo com esse tipo de pessoas. e quando leio as Escrituras, vejo que não sou o único.
quando Cristo proferia suas parábolas, geralmente ele pronunciava uma conhecida frase “aqueles que têm ouvidos para ouvir, ouçam.” a frase poderia ser entendida como: se você realmente deseja ouvir e está em condições de fazê-lo, ouça. Cristo não “empurrava goela abaixo” o evangelho que viveu e apregoou. duas reflexões podem ser extraídas dessa frase, uma do cotidiano e outra teológica.
infelizmente um bom número de “religiosos” (é somente assim que consigo concebê-los, pois não cometeria o absurdo de chamá-los de cristãos) não consegue conceber um diálogo sobre compreensão bíblica como algo do campo das idéias, mas lidam como se fosse algo absolutamente passional.
seguramente isso está ligado a sua compreensão do que significa a fé cristã. ela não está ligada a uma “massa de pessoas” praticamente em “transe”, dado o “embalo” emocional da música e pregação de um carismático. a fé cristã descrita nas Escrituras é o resultado da compreensão e vivência do evangelho. se essa fé não fosse alvo de diálogo não poderia ser chamada de cristianismo, seria uma seita e o próprio Cristo teria errado em sua forma de apregoar o evangelho.
perceba que a descrição de fé feita por paulo no livro de hebreus está mais próxima da descrição do resultado da fé, não do seu conceito de proceder. pedro é quem melhor nos indica – em 1 Pe 3.15 – como deve ser esse proceder da fé. como cristãos devemos estar preparados para “dar razão de nossa fé”. pedro está falando de apologética; a possibilidade e necessidade de ser o evangelho posto em diálogo. os maiores apóstolos descritos nas Escrituras eram aqueles que dialogavam acerca do evangelho com pessoas que seguramente não compartilhavam de suas idéias. isso é descrito como pregar o evangelho.
você consegue ver o quanto o “meio religioso” e a relação entre religiosos e não religiosos mudaria o seu proceder se compreendesse essa questão?

shalom shabbat!

b. schwantes
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p.s. encare esse texto como uma conversa entre autor e leitor.
não sei quanto ao chat de hoje, aviso pelo twitter.
o texto próximo que publicarei será a continuação desse: ouça 2/2.